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Gursky e a fotografia de 4 milhões de dólares

Terça-feira o fotógrafo alemão Andreas Gursky teve uma de suas fotos vendida por exatos 4,338,500 de dólares. Muita discussão rolou nos últimos dias em torno da obra. Como sempre, algumas pessoas se frustram ao tentar fazer uma relação entre uma obra de arte e seu preço. Geralmente elas esperam que uma obra de arte tenha “beleza”; e não só isso, esperam que tenha uma “beleza” correspondente ao seu valor em dinheiro. E, também como de costume, o senso comum acaba desprezando não só a obra como também o artista porque ele não consegue encontrar o correspondente a tantos milhões de dólares traduzidos em “arte” na obra em si.

Rhein II - Andreas Gursky

Bem, o mercado de arte, especialmente o alto circuito como esse do qual Gursky participa, é uma esfera das relações sociais com regras muito particulares, que tem mais a ver com a lógica da economia de mercado capitalista que com a arte como prática. Ela é dominada por leiloeiros, marchands, publicações especializadas, críticos, colecionadores e agentes financeiros interessados na criação de valor (no acréscimo, diga-se de passagem) e na partilha desse extra-valor que eles mesmos criam entre os agentes desse circuito do comércio de arte. O caráter teatral desse mercado é apenas uma exacerbação do caráter teatral das relações capitalistas de criação de valor em qualquer outra esfera da vida.

Dito isso, é preciso voltar a Gursky e a sua obra. Primeiro, é preciso dizer que essa não foi uma venda direta do artista. Essa obra, Rhein II, é de 1999 e já não pertencia a Gursky, e sim a um “anônimo” colecionador alemão. Portanto, dependendo do contrato estabelecido entre este colecionador privado e Gursky é possível que o próprio autor da obra não veja um único centavo desse dinheiro todo.

De todo modo, não é porque suas obras frequentam o teatro do alto mercado de arte que elas não tenham consistência. Pelo contrário, Gursky é um fotógrafo com sólida formação; seu estilo e a problemática que tematiza em seus trabalhos tem relação com sua origem na chamada Escola de Dusseldorf, que tem o casal Becher como referência. E, de uma forma geral, suas obras estão em sintonia com o desafio intelectual que muitos pensadores, artistas e escritores alemães que cresceram no mundo do pós-guerra se propuseram a investigar.

Suas fotografias, ampliações em grande escala de paisagens e cenários banais ou desolados, remetem a experiências bastante familiares ao mundo industrial e pós-industrial do fim do século 20 e início do século 21. Esse mundo marcado pela intensificação da massificação do consumo, da ascenção e declínio do mundo industrial, da passagem do trabalho fabril para o de serviços, de relação com os grandes vazios e cenários urbanos mortos criados pelo urbanismo ditado pelo mercado imboliário; ou pelo frenesi das grandes concentrações humanas.

A fotografia de Gursky não é decorativa, ela não é produzida para enfeitar paredes. Assim como a fotografia do casal Becher e tantos outros fotógrafos serialistas e conceituais. Suas fotografias são rigorosos estudos formais do mundo contemporâneo que desnaturalizam a paisagem do capitalismo contemporâneo e colocam o expectador diante da imagem de seu próprio tempo . E como é possível verificar em muitos de seus trabalhos, seu rigor formal também produz espanto e, porque não, alguma forma de beleza, que é o que se espera das obras de arte intensas.

Para quem quiser compreender um pouco melhor a obra de Andreas Gursky, sugiro que vejam o pequeno vídeo abaixo, produzido pela BBC nos anos 90 (clique aqui para ver na página do Vimeo). É uma abordagem bem-humorada e bastante instrutiva. Bem no fim, por sinal, ele fala sobre Rhein II, justamente a sua obra de 4 milhões de dólares, e leva o apresentador ao local onde tirou aquela que considerava, até então, sua foto preferida.

***Um pouco mais de Gursky, agora na série “Contacts“. Aqui alguém lê um texto ou depoimento de Andreas Gursky.
http://www.youtube.com/watch?v=vg3Y8A7kq_Y

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